Cortisol e suas interações sistêmicas com órgãos em cães e gatos: implicações metabólicas, imunológicas e endócrinas
O cortisol é o principal glicocorticoide produzido pela zona fasciculada do córtex adrenal e exerce papel fundamental na regulação da homeostase metabólica, imunológica e inflamatória em mamíferos. Sua secreção ocorre sob controle do eixo hipotálamo–hipófise– adrenal (HHA), sendo modulada principalmente pelo hormônio liberador de corticotrofina (CRH) e pelo hormônio adrenocorticotrófico (ACTH).
Embora fisiologicamente essencial para adaptação ao estresse e manutenção do metabolismo energético, alterações persistentes na secreção de cortisol podem desencadear múltiplos efeitos sistêmicos. Em medicina veterinária, tais alterações são frequentemente observadas em doenças como o hiperadrenocorticismo canino, além de estados prolongados de estresse fisiológico ou inflamação crônica.
Estudos recentes demonstram que o cortisol exerce efeitos diretos e indiretos em diversos órgãos, incluindo Por: Dra. Glauce Carreira intestino, fígado, ossos, tireoide, pâncreas e órgãos linfóides como o baço, influenciando processos metabólicos, imunológicos e estruturais (Kooistra & Galac, 2012; Behrend et al., 2013).
1) Cortisol e o intestino: eixo estresse– microbiota–barreira intestinal
O trato gastrointestinal constitui um dos principais pontos de interação entre sistema endócrino, sistema imunológico e microbiota intestinal. O cortisol influencia diretamente a integridade da barreira intestinal, a motilidade gastrointestinal e a resposta imune da mucosa.
Em condições fisiológicas, os glicocorticoides participam da regulação da inflamação intestinal e da manutenção da homeostase imunológica. No entanto, níveis elevados de cortisol podem alterar a expressão de proteínas responsáveis pela integridade das junções intercelulares epiteliais, como claudinas e ocludinas, aumentando a permeabilidade intestinal.
Segundo Vanuytsel et al. (2014), a ativação do eixo HHA e a liberação de cortisol estão diretamente associadas ao aumento da permeabilidade intestinal em condições de estresse. Além disso, estudos mais recentes demonstram que glicocorticoides também influenciam a composição da microbiota intestinal, podendo reduzir a diversidade bacteriana e favorecer processos inflamatórios intestinais (Mayer et al., 2019).
Em cães, essa interação entre cortisol, microbiota e sistema imune intestinal pode contribuir para o agravamento de doenças gastrointestinais inflamatórias crônicas, como enteropatias inflamatórias.
2) Efeitos do cortisol no fígado: metabolismo energético e hepatopatia esteroide
O fígado é um dos principais órgãos- alvo da ação metabólica do cortisol. Os glicocorticoides estimulam a gliconeogênese hepática, promovendo a produção de glicose a partir de aminoácidos e glicerol. Esse efeito ocorre através da ativação de enzimas-chave da gliconeogênese, como fosfoenolpiruvato carboxiquinase (PEPCK) e glicose-6-fosfatase.
Em cães com hiperadrenocorticismo, esse aumento da produção hepática de glicose frequentemente resulta em hiperglicemia e resistência à insulina.
De acordo com Feldman et al. (2015), cães com hipercortisolemia crônica frequentemente apresentam hepatomegalia associada ao acúmulo intracelular de glicogênio, caracterizando a chamada hepatopatia esteroide.
Estudos clínicos descritos por Kooistra e Galac (2012) demonstram que essa condição pode resultar em vacuolização hepatocelular difusa e elevação de enzimas hepáticas, especialmente fosfatase alcalina.
Além dos efeitos metabólicos, o cortisol também influencia a metabolização lipídica hepática, podendo contribuir para dislipidemias e acúmulo de gordura hepática.
3) Cortisol e metabolismo ósseo: impacto no remodelamento ósseo
O tecido ósseo é altamente sensível à ação dos glicocorticoides. O cortisol exerce efeitos diretos sobre osteoblastos e osteoclastos, alterando o equilíbrio entre formação e reabsorção óssea.
Os glicocorticoides reduzem a diferenciação e atividade dos osteoblastos, diminuindo a síntese de colágeno tipo I e de proteínas da matriz óssea. Simultaneamente, estimulam a atividade osteoclástica, promovendo maior reabsorção óssea.
Segundo Canalis et al. (2007), a exposição crônica a glicocorticoides resulta em redução da densidade mineral óssea devido à diminuição da formação óssea e aumento da reabsorção. Além disso, o cortisol reduz a absorção intestinal de cálcio e interfere na ação da vitamina D, agravando a perda mineral óssea.
Em cães submetidos a terapias prolongadas com glicocorticoides ou com hiperadrenocorticismo, esses efeitos podem contribuir para osteopenia, atraso na cicatrização óssea e fragilidade esquelética.
4) Interação entre cortisol e função tireoidiana
Existe uma interação importante entre o eixo hipotálamo– hipófise–adrenal e o eixo hipotálamo–hipófise– tireoide. O cortisol exerce efeitos inibitórios sobre a produção e regulação dos hormônios tireoidianos.
Altos níveis de cortisol podem reduzir a secreção de TRH pelo hipotálamo e diminuir a liberação de TSH pela hipófise. Além disso, o cortisol interfere na conversão periférica de tiroxina (T4) em triiodotironina (T3) por meio da modulação das enzimas desiodinases.
Segundo Daminet e Ferguson (2003), cães com hiperadrenocorticismo frequentemente apresentam concentrações reduzidas de T4 total e T3, sem necessariamente apresentarem hipotireoidismo primário. Esse fenômeno é conhecido como síndrome do eutireoidismo doente, frequentemente observado em doenças sistêmicas e estados de estresse crônico.
5) Cortisol e pâncreas: resistência insulínica e risco metabólico
O pâncreas endócrino desempenha papel central na regulação da glicemia. O cortisol influencia diretamente o metabolismo da glicose ao estimular a gliconeogênese hepática e reduzir a sensibilidade periférica à insulina.
Como consequência, ocorre aumento da demanda funcional das células beta pancreáticas, levando a hiperinsulinemia compensatória.
De acordo com Peterson (2007), cães com hiperadrenocorticismo apresentam maior risco de desenvolver diabetes mellitus secundário devido à resistência insulínica induzida pelo cortisol. Além disso, alterações no metabolismo lipídico associadas à hipercortisolemia podem aumentar os níveis de triglicerídeos e colesterol, fatores associados ao desenvolvimento de pancreatite em cães (Behrend et al., 2013).
6) Cortisol e sistema imune: efeitos no baço
O baço é um órgão linfóide fundamental na resposta imunológica sistêmica. O cortisol exerce efeitos imunomoduladores significativos sobre as células imunes presentes nesse órgão.
Os glicocorticoides promovem redistribuição leucocitária, redução da proliferação linfocitária e indução de apoptose de determinadas populações celulares.
Segundo a revisão clássica de Sapolsky, Romero e Munck (2000), os glicocorticoides atuam como reguladores complexos da resposta imune, exercendo efeitos permissivos, supressores e moduladores sobre diversos tipos celulares.
No baço, esses efeitos podem reduzir a capacidade de resposta imunológica adaptativa e alterar a atividade de macrófagos e células dendríticas, aumentando a susceptibilidade a infecções em animais com hipercortisolemia crônica.
Considerações finais
O cortisol desempenha papel central na integração entre metabolismo energético, resposta imunológica e regulação endócrina. Sua atuação em órgãos como intestino, fígado, ossos, tireoide, pâncreas e baço demonstra que alterações no eixo hipotálamo–hipófise– adrenal possuem repercussões sistêmicas amplas.
A compreensão dessas interações é fundamental para a prática clínica veterinária, especialmente no diagnóstico e manejo de doenças endócrinas, metabólicas e inflamatórias em cães e gatos.
Uma abordagem integrativa desses mecanismos permite melhor entendimento da fisiopatologia de diversas enfermidades e contribui para estratégias terapêuticas mais eficazes.
Referências científicas
Behrend EN et al. 2013.
Diagnosis of spontaneous canine hyperadrenocorticism. Journal of Veterinary Internal Medicine.
Canalis E et al. 2007.
Glucocorticoid-induced osteoporosis. Endocrine Reviews.
Daminet S, Ferguson DC. 2003.
Influence of drugs on thyroid function in dogs. Journal of Veterinary Internal Medicine.
Feldman EC et al. 2015.
Canine and Feline Endocrinology. Elsevier.
Kooistra HS, Galac S. 2012.
Recent advances in the diagnosis of Cushing’s syndrome in dogs. Veterinary Clinics of North America.
Mayer EA et al. 2019.
Gut microbiome and stress interactions. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology.
Peterson ME. 2007.
Diagnosis of hyperadrenocorticism in dogs. Veterinary Clinics of North America.
Sapolsky RM et al. 2000.
How do glucocorticoids influence stress responses? Endocrine Reviews.
Vanuytsel T et al. 2014.
Stress and the gastrointestinal barrier. Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology.Dra Glauce Carreira, pós graduada em Ortomolecular e Alimentação funcional com Formação em Modulação Intestinal, Florais Quânticos. Professora e coordenadora de 1ª pos graduação no Mundo de Med Ortomolecular e Modulação Intestinal na Veterinária pelo IDEPES, Ceo do Instituto Wellness Pet, o maior centro de terapias integrativas e holísticas para Pets exóticos e Silvestres do País.
Informações: (11) 98915-3162

















