Matérias • 29 de Sep, 2026

PÓS-BIÓTICOS NA MEDICINA VETERINÁRIA

NP

Redação

Negócios Pet

Da bactéria viva aos sinais moleculares: uma nova compreensão da comunicação entre microbiota e hospedeiro


 Durante muitos anos, falar em microbiota intestinal significava, principalmente, falar sobre quais bactérias estavam presentes no intestino. A atenção científica estava concentrada na identificação dos microrganismos, na sua capacidade de sobreviver ao trato gastrointestinal e na possibilidade de utilizar determinadas espécies como probióticos. 

O conceito de probiótico consolidou-se a partir da uti- lização de microrganismos vivos capazes de proporcionar benefícios à saúde quando administrados em quantidade adequada e dentro de condições específicas. Essa abordagem trouxe uma nova perspectiva para a medicina e para a nutrição, incluindo a medicina veterinária. 

Com o avanço da microbiologia, entretanto, tornou-se evidente que a interação entre microrganismos e hospe- deiro é muito mais complexa do que simplesmente a presença de bactérias vivas. 

Os microrganismos produzem metabólitos, apresentam estruturas de superfície, liberam componentes celulares e interagem continuamente com as células epiteliais e imunológicas do hospedeiro. Dessa forma, uma parte importante dos efeitos atribuídos aos microrganismos poderia estar relacionada não apenas à sua sobrevivência, mas também aos sinais biológicos que eles apresentam ou produzem. 

Foi nesse contexto que ganhou força o conceito de pós-biótico. 

Em 2021, um painel internacional de especialistas reunido pela International Scientific Association for Probiotics and Prebiotics, a ISAPP, estabeleceu uma definição consensual para o termo. Pós-biótico passou a ser definido como uma preparação de microrganismos inanimados e/ou seus componentes que proporciona benefício à saúde do hospedeiro.

Essa definição foi importante porque estabeleceu uma distinção científica entre simplesmente encontrar uma bactéria inativada em um produto e possuir, de fato, uma preparação que possa ser denominada pós-biótica. 

O consenso ressalta que uma preparação pós-biótica deve apresentar caracterização adequada do microrganis- mo de origem, descrição do processo de inativação, confirmação de que a inativação ocorreu, caracterização da composição e evidência de benefício à saúde no hospedeiro-alvo.

Portanto, o conceito moderno de pós-biótico não significa simplesmente “bactéria morta”. 

Ele representa uma preparação biologicamente carac- terizada na qual o microrganismo não precisa permanecer vivo para que determinados componentes exerçam atividade sobre o organismo. 

Essa mudança de paradigma é especialmente interessante quando pensamos na medicina veterinária. 

O material técnico utilizado como base para esta matéria apresenta diferentes aplicações de pós-bióticos em cães e gatos e destaca que essas preparações podem envolver componentes como bacteriocinas, ácidos orgânicos, fragmentos celulares, enzimas e exopolissacarídeos. 

A pergunta, portanto, deixa de ser apenas “qual bactéria está presente?” e passa a ser também: 

Quais estruturas estão presentes nessa preparação e como o organismo reconhece esses componentes? 

É nesse ponto que entram os MAMPs. MAMPs, metabólitos e pós-bióticos: três conceitos que não devem ser confundidos.

A evolução do conhecimento sobre a microbiota revelou que as células do hospedeiro possuem mecanismos sofisticados para reconhecer estruturas características dos microrganismos. 

Essas estruturas são denominadas MAMPs, sigla para Microbe-Associated Molecular Patterns, ou padrões moleculares associados a microrganismos. 

Entre os exemplos estão componentes da parede bacteriana, como peptidoglicanos e ácidos lipoteicoicos, além de outras estruturas microbianas capazes de serem reconhecidas por receptores do sistema imune inato. 

Os MAMPs são reconhecidos por estruturas denominadas PRRs, ou receptores de reconhecimento de padrões. A interação entre MAMPs e PRRs participa da comunicação entre microrganismos e células do hospedeiro e pode influenciar mecanismos relacionados à imunidade, à integridade da barreira epitelial e à resposta inflamatória.

Esse fenômeno ajuda a explicar uma característica fasci- nante dos pós-bióticos: uma célula microbiana não precisa estar viva para que determinadas estruturas presentes em sua superfície sejam biologicamente reconhecidas. 

Uma preparação pós-biótica pode preservar compo- nentes estruturais do microrganismo capazes de participar dessa comunicação. 

É importante, entretanto, não confundir MAMP com pós-biótico. 

 MAMP é uma estrutura ou padrão molecular. Pós-biótico é uma preparação. 

Um MAMP pode fazer parte de uma preparação pós-biótica, mas não representa, sozinho, a definição de pós-biótico. 

O mesmo raciocínio vale para os metabólitos microbianos. 

Bactérias e outros microrganismos produzem numerosas moléculas durante seu metabolismo. Entre elas estão ácidos orgânicos e ácidos graxos de cadeia curta, como acetato, propionato e butirato. 

Essas moléculas podem exercer funções importantes sobre o hospedeiro. No entanto, um metabólito microbiano purificado não deve ser automaticamente denominado pós-biótico. 

O consenso da ISAPP é bastante claro nesse ponto: metabólitos microbianos substancialmente purificados, isoladamente, não são considerados pós-bióticos. Eles devem ser identificados pela sua própria nomenclatura química.  

Por isso, o butirato não deve ser utilizado como sinônimo de pós-biótico. 

 O butirato é um metabólito microbiano. 

O pós-biótico é uma preparação de microrganismos inanimados e/ou seus componentes que demonstrou benefício à saúde. 

Essa distinção é fundamental para evitar uma simplificação excessiva do conceito. 

A importância da estrutura microbiana 

Quando um microrganismo é submetido a um processo de inativação, diferentes métodos podem preservar ou modificar componentes de sua estrutura. 

Isso significa que duas preparações produzidas a partir de microrganismos diferentes, ou mesmo submetidas a processos de inativação diferentes, podem apresentar composições e atividades biológicas distintas. 

O próprio consenso internacional chama atenção para a importância do microrganismo de origem, da matriz e do processo de inativação na caracterização de um pós-biótico.

Essa característica explica por que não é adequado fa- lar de “pós-biótico” como se todos fossem biologicamente iguais. 

A cepa de origem importa. 

A composição da preparação importa. 

O processo de produção importa. 

E, principalmente, a evidência científica relacionada à preparação e ao hospedeiro importa. 

O material técnico utilizado nesta matéria apresenta exatamente essa perspectiva ao individualizar diferentes cepas pós-bióticas, entre elas Lactiplantibacillus plantarum LP05, Bifidobacterium animalis subsp. lactis BLA80 e Bifidobacterium breve BBr60. 

É a partir dessa individualização que podemos compreender a próxima etapa da evolução dos pós-bióticos: a busca por uma assinatura funcional específica de cada cepa. 

Três cepas, três assinaturas biológicas 

Se o conceito de pós-biótico representa uma preparação e não simplesmente uma molécula, a escolha da cepa de origem torna-se particularmente relevante. 

Entre as cepas apresentadas no material técnico estão Lactiplantibacillus plantarum LP05, Bifidobacterium animalis subsp. lactis BLA80 e Bifidobacterium breve BBr60. Embora todas possam ser estudadas dentro do universo dos pós-bióticos, elas apresentam características funcionais diferentes.

Lactiplantibacillus plantarum LP05  

O LP05 apresenta uma característica funcional fortemente relacionada à atividade antimicrobiana, à barreira intestinal e à imunomodulação. 

O material descreve a participação de ácidos orgânicos e bacteriocinas em sua atividade antimicrobiana, além de componentes associados à modulação imunológica. 

No conteúdo destinado aos felinos, o LP05 também é apresentado em associação com o fortalecimento da barreira epitelial, imunomodulação e produção de ácidos graxos de cadeia curta. 

Sua importância conceitual está justamente na possibilidade de reunir diferentes mecanismos dentro de uma mesma preparação. 

O interesse pelo LP05, portanto, não está simplesmente no fato de pertencer ao gênero Lactiplantibacillus, mas na assinatura funcional específica daquela cepa e de sua preparação pós-biótica. 

Bifidobacterium animalis subsp. lactis BLA80 

O BLA80 apresenta uma característica funcional diferente. No material técnico, essa cepa está relacionada à mo- dulação da microbiota intestinal, redução do pH intestinal e aumento de propionato fecal. Também são descritas relações com a redução de determinados microrganismos potencialmente associados a alterações intestinais. 

No conteúdo relacionado aos felinos, o BLA80 aparece associado à modulação positiva da microbiota, efeitos imu- nomoduladores e alterações relacionadas ao perfil lipídico. 

A literatura recente também vem investigando BLA80 em diferentes contextos, incluindo microbiota intestinal, função gastrointestinal e modelos experimentais relacionados à inflamação e metabolismo. 

Sua característica diferencial, dentro desta matéria, é a forte conexão entre microbiota, produtos do metabolismo microbiano e resposta sistêmica do hospedeiro. 

Bifidobacterium breve BBr60 

O BBr60 apresenta outra assinatura. O material técnico relaciona essa cepa à imunomodu- lação intestinal e à integridade epitelial, além de destacar mecanismos relacionados à imunidade da mucosa, incluindo estímulo de linfócitos intestinais e produção de IgA secretória. 

 Na apresentação direcionada aos gatos, o BBr60 é relacionado à tolerância imunológica, estímulo de células T regulatórias e propriedades anti-inflamatórias. 

Estudos recentes também vêm investigando o BBr60 em modelos metabólicos e na interação entre microbiota intestinal, ácidos graxos de cadeia curta e respostas inflamatórias.

Aqui surge uma importante conclusão: não existe uma única “ação dos pós-bióticos”. 

A atividade depende da preparação, da cepa, de seus componentes, do processo de produção e do hospedeiro estudado. Pós-biótico não é MAMP e não é simplesmente metabólito A compreensão moderna pode ser sintetizada em três conceitos distintos. 

MAMPs são padrões moleculares associados aos micror- ganismos que podem ser reconhecidos por receptores do hospedeiro. 

Metabólitos microbianos são moléculas produzidas pelo metabolismo dos microrganismos, como acetato, pro- pionato, lactato e butirato. 

Pós-bióticos são preparações de microrganismos inanimados e/ou seus componentes que demonstraram benefício à saúde do hospedeiro. 

Essa diferença é mais do que uma questão de nomenclatura. 

Ela modifica a maneira como interpretamos a microbiota e suas intervenções. 

O pós-biótico pode carregar componentes estruturais que funcionam como MAMPs. Pode também conter metabólitos produzidos durante o crescimento ou processamento do microrganismo. Entretanto, isso não significa que qualquer MAMP ou qualquer metabólito isolado possa ser chamado de pós-biótico. 

O verdadeiro avanço está em compreender o conjunto. 

DA MICROBIOTA À BIOLOGIA DOS SINAIS 
A história dos probióticos começou com a valorização dos microrganismos vivos. 

Posteriormente, a ciência passou a reconhecer que os efeitos dos microrganismos também envolvem seus metabólitos e seus componentes estruturais. 

O estudo dos MAMPs revelou como o organismo consegue reconhecer padrões microbianos por meio dos PRRs. 

E o conceito de pós-biótico reuniu essa evolução em uma definição que permite estudar preparações de microrganismos inanimados de maneira mais precisa. 

Hoje, a pergunta científica já não precisa ser apenas: 

“Qual bactéria devemos administrar?” Podemos avançar para perguntas mais sofisticadas: 

“Quais componentes dessa preparação estão biologicamente ativos?” 

“Quais estruturas microbianas podem ser reconhecidas pelo hospedeiro?” 

“Quais vias de sinalização podem ser moduladas?” 

“Qual é a evidência para aquela cepa e para aquela espécie animal?” 

É justamente nessa mudança de perspectiva que os pós-bióticos ganham espaço na medicina veterinária. 

O futuro da modulação intestinal provavelmente não estará baseado em uma única estratégia, mas na compre- ensão cada vez mais precisa da comunicação entre micro- biota, barreira intestinal, sistema imune, metabolismo e tecidos do hospedeiro. 

Mais do que adicionar bactérias, começa a ser possível trabalhar com a informação biológica produzida e apresentada pelos microrganismos. 

E essa talvez seja a principal revolução conceitual dos pós-bióticos: compreender que, mesmo quando o micror- ganismo deixa de estar vivo, seus componentes podem continuar participando da complexa linguagem molecular entre microbiota e hospedeiro. 

Dra Glauce Carreira - Crmv-sp 14.353 pós graduada em Ortomolecular e Alimentação funcional com Formação em Modulação Intestinal, Florais Quânticos. Professora e coordenadora de 1ª pos graduação no Mundo de Med Ortomolecular e Modulação Intestinal na Veterinária pelo IDEPES, Ceo do Instituto Wellness Pet, o maior centro de terapias integrativas e holísticas para Pets exóticos e Silvestres do País. 

Informações: (11) 98915-3162 

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