1.Deficiência de hormônios sexuais e sobrecarga adrenal em cães e gatos
Os hormônios sexuais exercem papel regulatório fundamental na fisiologia sistêmica de cães e gatos. Além da função reprodutiva, estrógenos, progesterona e andrógenos participam ativamente do equilíbrio do eixo hipotálamo- hipófise-adrenal (HHA), modulando a esteroidogênese, a resposta ao estresse e a estabilidade metabólica. Quando ocorre deficiência de hormônios sexuais ,seja por falência gonadal, senescência fisiológica ou intervenção iatrogênica , o organismo perde uma importante fonte reguladora da produção esteroidal. Como consequência, as glândulas adrenais passam a assumir papel compensatório, aumentando sua atividade para suprir, parcial e inadequadamente, essa ausência hormonal.
Essa sobrecarga adrenal não representa um mecanismo fisiológico ideal, mas sim uma adaptação crônica. A adrenal, ao ser forçada a produzir quantidades aumentadas de precursores androgênicos, progesterona e estrógenos, altera o fluxo normal da esteroidogênese, favorecendo desequilíbrios hormonais sistêmicos.
Em cães, esse fenômeno é particularmente relevante, pois a adrenal possui capacidade significativa de produção de esteroides sexuais. Com o tempo, essa hiperatividade compensatória contribui para alterações funcionais da glândula, predispondo a hiperplasias, disfunções hormonais e sinais clínicos progressivos, mesmo na ausência de lesões estruturais evidentes.
Referência:
Hill KE, Scott-Moncrieff JC, Koshko MA, Glickman LT. Secretion of sex hormones in dogs with adrenal dysfunction. J Am Vet Med Assoc. 2005;226(4):556- 561.
2. Consequências da sobrecarga adrenal sobre outros eixos endócrinos
A ativação crônica da adrenal como mecanismo compensatório à deficiência hormonal sexual desencadeia efeitos em cascata sobre outros eixos endócrinos. A esteroidogênese adrenal aumentada altera o equilíbrio entre cortisol, progesterona, andrógenos e estrógenos, interferindo diretamente na regulação hipotalâmica e hipofisária. Esse desequilíbrio impacta de forma significativa o eixo tireoidiano.
Hormônios tireoidianos são altamente sensíveis ao estado metabólico e ao nível de estresse endócrino. A sobrecarga adrenal pode reduzir a conversão periférica de T4 em T3, alterar a expressão de receptores tireoidianos e mascarar disfunções tireoidianas subclínicas.
Em cadelas, a deficiência de hormônios sexuais associada à hiperatividade adrenal compromete a leitura clínica dos exames tireoidianos, especialmente quando não se considera o estágio hormonal global do paciente. Em gatos, embora o hipertireoidismo seja mais frequente, alterações compensatórias da adrenal podem modificar a resposta metabólica e inflamatória, agravando quadros sistêmicos.
Estudos demonstram que o eixo tireoide–reprodução não funciona de forma isolada. A ausência de hormônios sexuais rompe essa comunicação fisiológica, exigindo maior esforço adaptativo da adrenal e contribuindo para a instalação de disfunções endócrinas complexas.
Evidência científica
Scarpa et al. demonstraram variações significativas na função tireoidiana ao longo do ciclo estral em cães, reforçando a interdependência entre os eixos reprodutivo e tireoidiano e a necessidade de avaliação integrada.
Referência:
Scarpa P, Martini FM, Volta A, et al. Thyroid function varies with estrous cycle stage in dogs. J Vet Intern Med. 2024;38(2):e16959.
Implicação clínica:
A interpretação isolada de exames tireoidianos pode ser inadequada em pacientes com deficiência hormonal sexual e sobrecarga adrenal crônica.
3.Impacto da disfunção adrenal compensatória na imunidade
A sobrecarga adrenal decorrente da deficiência de hormônios sexuais afeta diretamente a regulação imunológica em cães e gatos. A produção cronicamente alterada de cortisol e esteroides sexuais modifica o equilíbrio entre respostas inflamatórias e anti-inflamatórias, comprometendo a eficiência da imunidade inata e adaptativa.
Hormônios sexuais possuem efeito modulador sobre linfócitos T e B, macrófagos e citocinas. Sua deficiência reduz a precisão da resposta imune, enquanto a hiperatividade adrenal pode promover estados de imunossupressão relativa ou inflamação persistente, dependendo do padrão hormonal predominante.
Clinicamente, esses animais apresentam maior incidência de infecções recorrentes, dermatopatias crônicas, doenças inflamatórias intestinais e resposta terapêutica insatisfatória. Em muitos casos, o tratamento convencional controla sintomas, mas não restaura o equilíbrio imunológico, pois a origem endócrina do problema permanece ativa.
A literatura demonstra que diferenças hormonais influenciam profundamente a resposta imune. Quando a deficiência hormonal força a adrenal a operar fora de sua função primária, o sistema imunológico se torna uma das primeiras áreas a manifestar desequilíbrio.
Evidência científica
Snider e Khan demonstraram que os hormônios sexuais modulam diretamente a resposta imune, influenciando a diferenciação celular e a produção de citocinas, oferecendo base mecanística para alterações imunológicas observadas em estados de deficiência hormonal.
Referência:
Snider H, Khan N. Sex hormones and the immune system. J Steroid Biochem Mol Biol. 2009;113(3-5):194-200.
Conclusão
A deficiência de hormônios sexuais em cães e gatos não representa um evento isolado, mas um fator desencadeador de sobrecarga adrenal e desorganização progressiva dos eixos endócrinos. A adrenal, ao assumir função compensatória crônica, altera a esteroidogênese, compromete a função tireoidiana e desregula a resposta imunológica. O reconhecimento desse mecanismo é fundamental para uma prática clínica mais precisa, preventiva e fisiologicamente coerente.
Dra Glauce Carreira, pós graduada em Ortomolecular e Alimentação funcional com Formação em Modulação Intestinal, Florais Quânticos. Professora e coordenadora de 1ª pos graduação no Mundo de Med Ortomolecular e Modulação Intestinal na Veterinária pelo IDEPES, Ceo do Instituto Wellness Pet, o maior centro de terapias integrativas e holísticas para Pets exóticos e Silvestres do País.
Informações: (11) 98915-3162

















