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A importância da saúde intestinal

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A importância da saúde intestinal

Por: Luis Fernando de Moraes

A microbiota intestinal é definida como um aglomerado dinâmico de microrganismos no trato gastrointestinal (GI) e o sistema de interações que esses organismos têm entre si e com as células hospedeiras (Kelly, 2011).

Nos mamíferos temos a predominância de dois membros de 2 filos: os Firmicutes e os Bacteroidetes, com menor número de Actinobacteria e Proteobacteria, e muitos filos menores, como Fusobacteria e Verrucomicrobia (Ian, 2017).

Os mamíferos possuem cerca de 20.000 genes que codificam proteínas, enquanto sua microbiota pode possuir coletivamente cerca de 10 milhões (Ian, 2017).

Atualmente as ferramentas moleculares nos permitem detalhar a microbiota intestinal de cães e gatos e comparar seus dados com animais saudáveis e doentes através das características filogenéticas (Stefanie, 2011).

Fungos e vírus também são membros importantes da microbiota, mas seu papel na saúde e na doença ainda está sendo avaliado (Kelly S et al., 2011).

Abordagens funcionais mais recentes, incluindo metagenômica e metabolômica, começaram a relacionar informações filogenéticas à função fisiológica (Oliver, 2015).

A microbiota intestinal é fundamental papel no equilíbrio da saúde e uma das principais estratégias para manter o organismo saudável. Existe uma relação importante entre o intestino e a saúde, por meio do conceito de permeabilidade intestinal. A integridade intestinal está ligada a um equilíbrio das bactérias intestinais e à nutrição saudável de enterócitos e colonócitos, que são as células da mucosa intestinal, sendo uma das suas principais funções servir como barreira, permitindo a absorção de nutrientes e reduzindo a translocação das moléculas de alto peso molecular ou micro-organismos patogênicos de entrarem na circulação sistêmica (Jan S, 2016).

As interações entre as bactérias intestinais e o sistema imunológico dos hospedeiros são mediados através do contato direto entre as bactérias e o sistema imunológico inato (por exemplo, receptores toll-like, receptores NOD2) (Pavlidis, 2015).

Apenas bactérias intestinais saudáveis participam do metabolismo dos ácidos biliares primários que entram no cólon e são convertidos em bile secundária. A proporção ideal de ácidos biliares primários e secundários é considerada um importante regulador da homeostase intestinal, uma vez que eles reduzem o processo inflamatório, inibem a germinação de esporos de C. difficile e modulam o metabolismo da insulina e da glicose por meio da ativação do peptídeo 1 semelhante ao glucagon (GLP-1) (Pavlidis, 2015).

Disbiose intestinal leva a alterações dos ácidos biliares, com potenciais consequências metabólicas negativas para o hospedeiro (Henri Duboc, 2013).

A composição da microbiota pode ser influenciada pela dieta, pela utilização de antibióticos por doença gastrointestinais, idade e outros fatores genéticos e ambientais (Oliver Deusch, 2015, Hirotaka Igarashi, 2014).

A microbiota intestinal tem vários papéis na manutenção da saúde do hospedeiro, incluindo a defesa contra patógenos, auxiliando na função barreira, equilibrando o sistema imunológico e fornecendo nutrientes para o hospedeiro via processo fermentativo e metabólico (Amanda B, 2016).

O desequilíbrio da microbiota intestinal é chamado de disbiose e pode trazer severas consequências para a saúde dos animais, como alterações imunológicas, estresse oxidativo e inflamação local e sistêmica (Jan S Suchodolski, 2016).

A mucosa gastrointestinal é composta por células epiteliais bem adaptadas, finas e semipermeáveis, com junções firmes entre as células. Quando a mucosa é rompida, a permeabilidade intestinal pode ocorrer e as bactérias do intestino, alimento não digerido ou toxinas podem translocar-se através dessa barreira. (Jan S Suchodolski, 2016).

Cães saudáveis apresentam maior biodiversidade de bactérias e estão representados pela coloração vermelha; já os cães com disbiose apresentam menor biodiversidade de bactérias e estão representados pela coloração azul; os cães após o tratamento estão representados pela coloração verde (Jan S Suchodolski, 2016).

Os métodos moleculares permitiram uma identificação mais detalhada de bactérias presentes nos tratos GI caninos e felinos (Jan S Suchodolski, 2011).

Cães com disbiose intestinal e insuficiência pancreática exócrina normalmente apresentam reduções dos níveis de cobalamina e aumentos dos níveis de folato plasmáticos. A vitamina B12 é fundamental metabolismo de 1 carbono, para a conversão da homocisteína em metionina (Stefanie Kather, 2020).

Principais causas e consequências de disbiose em cães e gatos

  • Doenças inflamatórias do intestino.
  • Enteropatias crônicas (responsivas a alimentos e a antibióticos).
  • Doença intestinal inflamatória idiopática.Diarreia aguda.
  • Síndrome de diarreia hemorrágicaaguda.
  • Diarreia aguda devido a várias origens (infecciosas e não infecciosas).
  • Estase intestinal.
  • Anormalidades anatômicas.
  • Divertículos do intestino delgado, estenoses ou aderências.
  • Obstruções parciais do intestino delgado.
  • Neoplasia.
  • Hipotireoidismo.
  • Diminuição da produção de ácido gástrico.
  • Gastrite atrófica.
  • Administração de medicamentos supressores de ácido (bloqueadores H2, omeprazol).
  • Insuficiência pancreática exócrina.
  • Produção reduzida de fatores antimicrobianos pancreáticos.
  • Fatores ambientais.
  • Antibióticos de forma indiscriminada.
  • Utilização de anti-inflamatórios. (Jan S. Suchodolski, 2016)

Suplementações de probióticos têm sido bem-sucedidas na prevenção e no tratamento da gastroenterite aguda, no tratamento da DII e na prevenção da alergia em animais de companhia e também no controle da obesidade em cães e gatos (Łukasz Grześkowiak, 2015).

Em cães com disbiose e doença inflamatória intestinal desenvolvem estresse oxidativo e alteração funcional da microbiota que persistiu mesmo diante de uma resposta clínica à terapia médica (Yasudhi Minamoto, 2015).

A utilização de probióticos em cães com diarreia alterou o microbioma intestinal de forma positiva, reduzindo a população de bactérias patogênicas com melhoras no metabolismo de aminoácidos e biossíntese de metabólitos secundários e redução na virulência de patógenos (Haiyan Xu, 2019).

Cães com doença inflamatória intestinal apresentam aumentos significativos de ligação de anticorpos às bactérias intestinais, ressaltando a importância do equilíbrio intestinal na patogênese da doença (Sirikul Soontararak, 2019).

Alterações na microbiota intestinal estão presentes em cães com doença inflamatória intestinal de forma semelhante ao que ocorre em seres humanos e podem contribuir para o desenvolvimento da doença (Jan S. Suchodolski, 2012).

Dieta com maiores teores de proteínas e redução dos níveis de carboidratos alteram o microbioma intestinal de forma positiva para redução e manutenção do score corporal em cães (Qinghong Li, 2017).

Cães apresentam microbioma intestinal muito semelhante aos seres humanos e o substrato dietético influencia de maneira significativa a população bacteriana intestinal (Luis Pedro, 2018).

A taxa de perda de peso em cães pode estar relacionada à composição da microbiota intestinal e sua produção de metabólitos como os ácidos graxos de cadeia curta (Ida N Kiele, 2017).

Avaliação da microbiota entre cães com score corporal ideal, cães com sobrepeso e obesos apresentou diferenças significativas notáveis na abundância relativa de várias frações fosfolipídicas do plasma e ácidos graxos voláteis fecais entre os fenótipos de peso (Genevieve M. Foster, 2018).

Cães com torção gástrica apresentam alterações significativas no microbioma intestinal e este processo pode apresentar correlação positiva com a doença (Meredith A, 2018).

Cães com linfoma multicêntrico apresentam alteração significativa do
microbioma intestinal em relação aos cães saudáveis. O índice de disbiose foi significativamente maior nos cães com linfoma com aumento do Streptococcus spp e redução dos níveis de Faecalibacterium spp, Fusobacterium ssp e Turicibacter spp (A. Gavazza, 2017).

A utilização de probióticos Lactobacillus bacterium durante 9 meses melhorou a concentração fecal de acetato e butirato com uma redução concomitante na amônia fecal (Sachin Kumar, 2017).

A utilização de probióticos demonstrou efeitos antiproliferativos e anti-inflamatórios em pólipos e inflamação em cães com doença inflamatória intestinal (Rossi, G, 2018).

Em felinos suplementados com o probiótico Enterococcus faecium apresentaram redução nos episódios de diarreia em relação ao grupo controle sugerindo efeitos positivos sobre a microbiota intestinal (Shelter, 2011).

Um estudo de intervenção duplo-cego controlado por placebo em 60 cães com diarreia aguda demonstrou que a utilização de probióticos reduziu as alterações digestivas, normalizando a consistência das fezes e com manutenção do apetite e redução do vômito (Carlos Gomes, 2016).

A suplementação de probióticos apresentou resultados positivos em todos os cães com diarreias responsivas a dieta de eliminação (S.N. Suater, 2006).

A administração oral do probiótico Enterococcus faecalis forneceu um benefício pequeno, mas mensurável quando usado como tratamento adjuvante na redução dos sinais clínicos de cães atópicos (Takafumi Osumi, 2019).

A administração da cepa probiótica Lactobacillus sakei probio-65 por 2 meses reduziu significativamente o índice de gravidade da doença em cães experimentais diagnosticados com dermatite atópica (Hyejin Kim, 2015).

A administração de L rhamnosus em cães parece reduzir os indicadores imunológicos de dermatite atópica canina embora nenhuma diminuição significativa dos sinais clínicos tenha sido detectada neste estudo (Rosanna Marsella, 2009).

A exposição precoce aos probióticos tem efeitos clínicos e imunológicos ao longo prazo para cães com dermatite atópica, com aumento da IL-10 (Rosanna Marsella, 2012).

A suplementação com Lactobacillus paracasei melhorou os sintomas da dermatite atópica canina e necessidade de medicamentos esteroidais foi reduzida (Yuri Ohshima, 2015).

A suplementação de zeolita em cães alterou o perfil microbiano intestinal
aumentando a população de bactérias saudáveis do gênero Lactobacillus e Bifidobacterium e reduziu a presença de bactérias patogênicas do gênero Klebsiella e Enterobacte (Alberto Sabbioni, 2016).

A utilização de probióticos por 60 dias em cães portadores de insuficiência renal crônica melhorou a taxa de filtração glomerular, reduzindo, e reduziu de maneira significativa a relação proteína creatinina urinária, retardando evolução da doença (Ilaria Lippi, 2017).

Em felinos, a suplementação de probióticos melhorou a azotemia e a qualidade de vidas nos gatos portadores de insuficiência renal crônica (Richard Palmquist, 2006).

Em felinos, a suplementação de probióticos Lactobacillus acidophilus melhorou a função barreira e o equilíbrio intestinal em gatos portadores do vírus da imunodeficiência felina (FIV) (Laura L Stoeker, 2013).

Resultados preliminares demonstraram que a inclusão da cepa probiótica Lactobacillus acidophilus pode efetivamente melhorar os parâmetros de qualidade fecal e, consequentemente, a saúde intestinal em gatos adultos saudáveis (Eleonora Fusi, 2019).

A administração de probióticos resultou em efeitos benéficos sistêmicos e imunomoduladores em gatos (Zoe V, 2006).

O tratamento com probiótico em gatos com constipação crônica e megacólon idiopático mostrou melhora clínica significativa após o tratamento, e os parâmetros histológicos sugerem um efeito anti-inflamatório, associado à redução da infiltração da mucosa e restauração do número de células intersticiais (Rossi G, 2018).

Em outro estudo realizado em cães de trabalho, a suplementação com zeolita melhorou o ecossistema da microbiota intestinal e reduziu o estresse oxidativo causado pelo estresse físico em cães de caça no início da temporada de trabalho (Paola Superchi, 2017).

Principais aplicações clínicas da zeolita

  • Ações antibacterianas e antivirais.
  • Ação destoxificante.
  • Ação antioxidante.
  • Estimula o sistema antioxidante endógeno.
  • Ação hemostática.
  • Redução da diarreia.
  • Promotoras de crescimento.
  • Ação imunomoduladora.
  • Câncer.
  • Adsorção de micotoxinas.
  • Redução de amônia, trazendo benefícios nas nefropatias e hepatopatias.
  • Alta segurança. (Hrvoje Valpotic, 2017, Carmen Laurino, 2015, Sandra Kraljevic, 2018, Sandra Eisenwagen, 2020).

Conclusão

A microbiota intestinal constitui a maior comunidade de bactérias no organismo e a sua alteração está associada a diversas patologias.

O intestino tem-se tornado alvo terapêutico correlacionando inúmeras patologias e desordens metabólicas.

O conceito de permeabilidade intestinal e a tolerância imune são fundamentais para o tratamento e prevenção de grande parte das doenças crônicas degenerativas, garantindo a absorção adequada de macro e micronutrientes, tolerância imunológico e redução da translocação de toxinas, proteínas de alto peso molecular e bactérias patogênicas que alteram a resposta imune e inflamatória.

O controle da disbiose é fundamental para a manutenção da saúde e equilíbrio imunológico em cães e gatos.

A intervenção com probióticos, zeolita e outras estratégias ajudam a equilibrar a microbiota intestinal, trazendo resultados positivos para inúmeras doenças crônicas degenerativas como: dermatite atópica, obesidade, alterações neurológicas, hepáticas, renais e alterações digestórias.

Métodos de diagnóstico para disbiose já foram desenvolvidos de forma específica para cães e gatos e serão fundamentais para o estadiamento da doença e averiguação da resposta clínica ao tratamento.

A autoria das bactérias intestinais de cada hospedeiro funciona como uma impressão digital capaz de diferenciar os indivíduos, correlacionando com o metabolismo, expressões dos genes, saúde ou doenças.

Luis Fernando de Moraes é médico-veterinário conceituado em nutrição clínica e integrativa. Professor de pós-graduação veterinária (Ibra, Bioethicus, Anclivepa, Quallitas e IMAN).

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