Distúrbios eletrolíticos em pequenos animais

Distúrbios eletrolíticos em pequenos animais

Por: Verônica M. T. C. Terrabuio e Andrigo Barboza de Nardi

Um vilão nas nossas internações.

Os distúrbios eletrolíticos e ácido-base ocorrem com frequência na clínica de pequenos animais. Os distúrbios gastrointestinais que geram vômito, diarreia, ou ambos, são as principais causas associadas e podem ocorrer secundariamente a afecções parasitárias, bacterianas, virais, ou inflamatórias em decorrência de diversos agentes causais. Em um paciente hígido, um grande volume de fluido contendo eletrólitos é secretado e reabsorvido pelo trato gastrointestinal, no entanto, a perda desses eletrólitos por vômito ou má absorção pode levar a importantes anormalidades como hiponatremia, hipocalemia e hipocloremia.

Os quadros diarreicos que ocorrem secundariamente a agentes infecciosos, principalmente nos filhotes, costumam ter graves consequências, principalmente por gerar um desequilibro ácido-básico importante, sendo comum a desidratação grave, associada a acidose metabólica, devido a perda excessiva de íons sódio (Na+) e do bicarbonato (HCO3-). Animais com diarreia prolongada também podem apresentar perda fecal massiva de potássio, podendo gerar hipocalemia com repercussão clínica.

Por esse motivo, nessas condições clínicas é altamente recomendável avaliar corretamente o grau de desidratação para estimar as perdas e corrigi-las. Nesse sentido o exame de hemogasometria e análise dos eletrólitos é um forte aliado, até mesmo para guiar a terapia com fluidos.

A fluidoterapia é uma das terapias mais empregadas na clínica de pequenos animais, no entanto seu uso deve ser realizado com cautela, tanto na escolha da melhor solução, de forma individualizada para cada paciente, quanto no cálculo das doses. O paciente deve ser monitorado durante todo o período em que receber terapia com fluidos, para evitar sobrecargas que podem ser muito nocivas.

Um animal adulto possui aproximadamente 60% de água em seu organismo, distribuídos entre os compartimentos intra e extracelular, sendo que o compartimento intracelular comporta maior volume de fluido, aproximadamente 40% do fluido corporal, enquanto que o espaço extracelular constitui um terço da água da corporal e é subdividido em espaço intersticial, intravascular e transcelular.

O compartimento intersticial comporta três quartos de todo o líquido do espaço extracelular. No espaço intravascular, os fluidos, como o plasma, se movimentam dentro dos vasos sanguíneos. Os compartimentos intersticial e intravascular são separados por membranas semipermeáveis que permitem um constante equilíbrio, que é ditado pelo gradiente de pressão osmótica. Esse conceito é importante na decisão de qual fluido escolher para cada situação clínica. Por isso, quando fazemos reposição hidríca em um paciente desidratado, o fluido que foi perdido no espaço extravascular entra pela via intravascular e será redistribuído para os outros compartimentos, de forma a equilibrar as perdas.

Existem dois principais tipos de fluidos na rotina clínica, os cristaloides e os coloides. Os cristaloides são definidos como soluções que podem se mover livremente entre os compartimentos corporais e podem ou não conter solutos eletrolíticos. São subclassificados em soluções hipotônicas, isotônicas ou hipertônicas, de acordo com sua tonicidade, que é a capacidade de deslocar água entre os compartimentos intra e extracelulares.

Um fluido cristaloide isotônico é uma solução eletrolítica que possui igual osmolalidade à do plasma. São soluções muito indicadas para reposição de volume intravascular e suporte de perfusão. São exemplos, as soluções de Ringer com Lactato, PlasmaLyte, Normosol e solução salina a 0,9%.

Uma solução cristaloide hipertônica é caracterizada por uma alta osmolalidade, ou seja, a presença de uma solução com concentração mais alta de solutos que possuem grande dificuldade de ultrapassar as membranas semipermeáveis e portanto o fluido tende a permanecer mais tempo no espaço intravascular. Por esse motivo essas soluções são mais indicadas para pacientes que precisam recuperar volume intravascular de forma rápida. São soluções úteis em determinadas situações clínicas como pacientes em choque hemorrágico ou TCE (trauma crânio encefálico), nos quais essa solução também costuma auxiliar na redução da PIC (pressão intracraniana).

Uma solução cristaloide hipotônica possui uma osmolalidade inferior à do plasma, com uma concentração menor de solutos. Esses também não ultrapassam facilmente as membranas e tendem a promover o movimento do fluido para dentro das células, por isso essa não é uma boa solução para correção de hipovolemia, uma vez que estimula o movimento da água para fora do compartimento intravascular, podendo ocorrer edema. As soluções hipotônicas podem ser indicadas para correção de desordens eletrolíticas como a hipernatremia, no entanto seu uso deve incluir cautela, não devendo a correção ser realizada de forma
abrupta devido aos possíveis danos ao SNC (Sistema Nervoso Central). São exemplos dessas soluções a dextrose a 5% e a solução de NaCl 0,45%.

As soluções coloides são constituídas de grandes moléculas que criam pressão osmótica e podem ser usadas com intuito de movimentar o fluido para o compartimento intravascular. Existem dois tipos principais de coloides, os naturais, como a albumina; e os sintéticos, que possuem uso cada vez mais limitado em Medicina Veterinária, devido aos efeitos adversos relacionados ao sistema de coagulação e risco de lesão renal aguda.

A reposição de fluidos e eletrólitos é muito importante, já que os desequilíbrios são muito frequentes nas diversas condições clínicas, caracterizando esses distúrbios como vilões muito frequentes nas nossas internações; e quando não corrigidos de forma correta e precoce, podem aumentar as taxas de morbidade e mortalidade, além de aumentar os custos dispensados ao tratamento, já que podem aumentar o tempo de internação e os custos com insumos.

Um dos distúrbios de eletrólitos mais comuns na nossa rotina clínica envolve a concentração sérica de potássio. O potássio é um eletrólito muito importante para quase todos os processos fisiológicos do organismo; é um cátion encontrado principalmente no meio intracelular, é essencial para a função normal dos nervos, coração, e tecido muscular, além de contribuir grandemente para funcionamento normal do sistema renal, gastrointestinal e endócrino. As alterações nas concentrações séricas de potássio geralmente são brandas, mas podem ser fatais em alguns casos. As principais causas de hipocalemia (redução sérica de potássio) na rotina clínica são pacientes com vômito, diarreia, poliúria intensa, fraqueza muscular, arritmias graves e naqueles pacientes em terapia com
insulina, diuréticos ou fluidoterapia massiva com solução de cloreto de sódio 0,9% ou soluções glicosadas. Nos felinos são importantes e comuns e causa de hipocalemia, a doença renal crônica e os quadros de diurese pós-obstrutiva.

A faixa de referência típica para o potássio sérico é de 3,5 – 5,5 mEq/L, mas a faixa pode variar de acordo com o laboratório. Os sinais clínicos oriundos da hipocalemia variam de acordo com a intensidade. Os mais comuns são anorexia, fraqueza muscular e poliúria e polidpsia. Nos felinos, um sinal clássico de hipocalemia é a ventroflexão de pescoço. Concentrações inferiores a 3,5 mEq/L podem apresentar sinais clínicos associados. Abaixo de 3,0 mEq/L as arritmias são comuns; e concentrações abaixo de 2,0 mEq/L são potencialmente fatais.

O cloreto (Cl-) é o ânion mais abundante nos fluidos extracelulares, incluindo o suco gástrico e intestinal. Apesar disso os distúrbios associados a esse eletrólito são pouco estudados em Medicina Veterinária. Pacientes com alterações gastrointestinais, principalmente vômito de conteúdo gástrico, comumente apresentam hipocloremia, que também pode estar presente em animais em uso de terapia com diuréticos de alça e tiazídicos, terapia com glicocorticoides, administração de fluidos pobres em Cl- (por exemplo, bicarbonato de sódio), e em diversas afecções como doença renal crônica, síndrome da lise tumoral aguda, anemia, obstrução uretral, diabetes melittus, síndrome da resposta inflamatória sistêmica, entre outras. Não há sinais clínicos específicos associados a hipocloremia.

A hiponatremia é um distúrbio menos comum na clínica de pequenos animais, mas pode ocorrer na doença hepática severa, doença cardíaca congestiva, lesão renal, hipoadrenocorticismo e em animais que fazem uso crônico de diuréticos. Os distúrbios eletrolíticos sempre devem ter a causa de base investigada e corrigida. Como dito, a fluidoterapia é uma das ferramentas mais eficazes para equilibrar os eletrólitos, sendo indicado que seja orientada através de avaliações clÍnicas e hemogasométricas frequentes.

Além da fluidoterapia, o tratamento de suporte também é uma importante ferramenta que auxilia esses pacientes. O controle da náusea e vômito com fármacos injetáveis como o citrato de maropitant ou ondansetrona são pontos fundamentais de controle dentro do ambiente de internação. A avaliação constante do
grau de dor também é indicada para todos os pacientes internados, os quais muitas vezes, a depender da afecção correlacionada, necessitam de analgésicos na prescrição médica. Outro pilar importantíssimo nas internações é o suporte nutricional adequado, já que nutrição, doença e imunidade são fatores dinâmicos que se relacionam em vários graus, devendo o suporte nutricional ser introduzido de forma precoce, porém gradual, nos pacientes anoréticos ou hiporéticos. Além disso, o uso de nutracêuticos e suplementos como o Eletrorade Pet pode beneficiar os pacientes com distúrbios eletrolíticos, atuando como uma terapia
complementar, pois ajuda na reposição das vitaminas do complexo B e dos eletrólitos como sódio e o potássio, o que contribui para ajudar a melhorar o apetite com maior rapidez, sendo esse um dos fatores mais associados com menor tempo de recuperação.

Por fim, é importante ressaltar que os pacientes com distúrbios eletrolíticos de qualquer ordem necessitam de um acompanhamento veterinário intensivo.

 

Verônica M. T. C. Terrabuio é pós-graduanda na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Unesp, Campus de Jaboticabal.

Andrigo Barboza de Nardi é docente na Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho, Unesp, Campus de Jaboticabal.

 

 

 

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