Entendendo o papel dos lipídeos

Por um longo período, os lipídeos ganharam uma má reputação, sendo sempre associados a questões como obesidade, problemas cardíacos, colesterol alto, etc.

Na realidade, a afirmação de que o consumo de lipídeos sempre irá trazer consequências ruins para o organismo é apenas parcialmente verdadeira, isso porque os seus efeitos no corpo dependem não somente da sua quantidade no alimento, mas também do tipo de lipídeo que está sendo ingerido [4].

Pequenas quantidades de lipídeos na dieta são essenciais para o funcionamento do organismo, pois além de serem uma fonte de energia extremamente potente, eles são importantes componentes na absorção de vitaminas lipossolúveis e na modulação do sistema imune, da inflamação e da hemodinâmica [4].

Para que a ação benéfica dos lipídeos seja esclarecida, é necessário primeiro que sejam compreendidas as suas classificações.

Classificação dos lipídeos

Os lipídeos são moléculas formadas a partir da reação de esterificação dos seguintes compostos
orgânicos: ácidos graxos e álcool.

Os ácidos graxos, por sua vez, podem, de uma forma bem resumida, ser classificados segundo a sua estrutura química em ácidos graxos saturados e insaturados [9].

Os ácidos graxos saturados são aqueles que contêm uma única ligação entre carbonos, ou seja, não possuem duplas ligações. São geralmente sólidos à temperatura ambiente. Gorduras de origem animal e alimentos industrializados são geralmente ricas em ácidos graxos saturados.

Este geralmente é o tipo de gordura que pode colaborar para a formação de doenças cardiovasculares, do cérebro, problemas nas artérias, diabetes e obesidade.

Os ácidos graxos insaturados (AGI) são classificados segundo o número e a localização de ligações duplas. Aqueles que possuem uma ligação dupla são denominados monoinsaturados e os que possuem duas ou mais duplas ligações são denominados poli-insaturados. Com base nesta classificação, os principais AGI são classificados nas série ω-3, ω-6 e ω-9. Os ácidos graxos insaturados geralmente são líquidos à temperatura ambiente [2].

Os ácidos graxos monoinsaturados apresentam uma única dupla ligação. Seus principais representantes são os da família ômega 9, sendo o ácido oleico o principal deles. As principais fontes de ácido oleico são os óleos de oliva e canola. Este ácido graxo pode ser produzido pelo próprio organismo, porém, para que isso ocorra, é necessário que ocorra a ingestão de ômega 3 e ômega 6. O ômega 9 está relacionado com menores riscos de desenvolvimento de doença arterial coronariana [8].

As duas principais classes de ácidos graxos poli-insaturados essenciais são o ômega 3 (ω-3) e o ômega 6 (ω-6). Ambos são essenciais aos mamíferos, pois suas células não têm a capacidade de inserir uma dupla ligação e sintetizá-los, por isso estes ácidos graxos devem ser obtidos pela alimentação [3].

Os AGI da série ω-6 são encontrados em castanhas, sementes e óleos vegetais, como os de milho, girassol e soja [7]. O ácido linoleico (LA) é o principal representante da série ω-6. Este AGI normalmente é mais abundante nas dietas e, consequentemente, encontram-se presentes em maior quantidade no organismo. Mesmo sendo essencial para o organismo, o ômega 6 é precursor de mediadores pró-inflamatórios que promovem vasoconstrição e ação pró-agregatória além de aumentar os níveis de LDL sanguíneo [12]. Os AGI da série ω-3 são encontrados nos peixes, principalmente savelha, salmão, atum e anchovas [12]. O ácido α-linolênico (ALA) é o principal representante desta série e é encontrado em plantas e animais marinhos. Após seu metabolismo, o ômega 3 originará os ácidos eicosapentaenoico (EPA) e docosahexaenoico (DHA), que também podem ser encontrados em grandes concentrações nos óleos de peixes de águas frias e profundas, principalmente cavala, sardinha, salmão e truta [2]. Estes ácidos graxos vão produzir metabólitos, denominados eicosanoides, que são responsáveis pela modulação da resposta inflamatória do organismo. O grupo dos eicosanoides é formado pelas prostaglandinas, prostaciclinas, tromboxanos, leucotrienos e derivados hidroxilados, com a principal função de regular a função celular [2].

 

Ômega 3 e o processoinflamatório 

No processo de metabolização, o α-linolênico (ALA) é convertido em ácido eicosapentaenoico (EPA) e em ácido docosahexaenoico (DHA), já o ácido linoleico (LA) converte-se em ácido araquidônico (AA).

Uma vez metabolizado pela via das COXs, o AA será precursor de prostaglandinas E2 (PGE2), tromboxanos A2 (TXA2), prostaciclinas 2 (PCI2) e leucotrienos da classe B4 (LTB4). Esses eicosanoides formados favorecem a inflamação, apresentando ação quimiotática, vasoconstritora e de agregação plaquetária [9].

Por outro lado, o EPA, preferencialmente degradado pela via LOX, será o precursor de prostaglandinas E3 – PGE3, tromboxanos A3 – TXA3 e prostaciclinas 3 – PCI3
e leucotrienos da classe 5 (LTB5), que por sua vez apresentam ações anti-inflamatórias e antiagregação plaquetária. O DHA não é substrato para as vias COX e LOX, mas atua inibindo a síntese de eicosanoides a partir do ω-6, inibindo, portanto, a liberação de AA da membrana [7,12].

Sabe-se que as enzimas envolvidas na produção de eicosanoides “preferem” degradar o ALA, levando à produção de EPA e DHA, do que converter o LA em AA. Portanto, uma vez que são utilizadas as mesmas enzimas no processo de produção tanto de AA, quanto na produção de EPA e DHA, os ácidos graxos da série ω-3 passam a exercer um efeito protetor, impedindo a formação dos eicosanoides derivados do LA e seus efeitos pró-inflamatórios [6].

Diante deste processo de metabolização, a ingestão adequada das duas séries de ácidos graxos poli-insaturados (ômega 6 e ômega 3), em proporções ideais garante o controle dos processos de coagulação e de inflamação [7]. Uma vez que o ômega 6 encontra-se em grandes quantidades nas dietas em geral, observa-se a importância da suplementação adequada de ômega 3 [10].

 

Benefícios

Devido às suas propriedades moduladoras de inflamação, o ômega 3 é indicado e aplicado para toda e qualquer enfermidade com cunho inflamatório associado, tanto em casos agudos como crônicos e/ou degenerativos, nas especialidades de nefrologia, dermatologia, endocrinologia, ortopedia, oncologia, gastroenterologia, oftalmologia, etc. Abaixo, alguns exemplos de condições clínicas para esclarecer o meio de ação do ômega 3:

 

Prevenção de doenças cardiovasculares

Estudos mostram que os ácidos graxos ω-3 possuem efeitos positivos no metabolismo energético do miocárdio na proteção das células endoteliais cardíacas e vasculares e na pressão arterial [4].

 

Modulador de problemas de pele

Segundo Popa et al. (2011), as células epiteliais de animais com dermatite falhas e desarranjos na estrutura da bicamada lipídica. O estudo também mostrou que animais dermatopatas que foram submetidos a um tratamento de dois meses com suplementação de ω-3 melhorou significantemente a organização estrutural dos lipídeos responsáveis pela estruturação da membrana celular. Isso ocorre porque os lipídeos que compõe a bi-camada lipídica celular são o ômega 3 e o ômega 6. Para que a célula permaneça saudável, estes dois tipos de ácidos graxos devem estar em equilíbrio. Mas como as dietas normalmente apresentam uma concentração muito maior de ômega 6 do que de ômega 3, o equilíbro da membrana celular normalmente está comprometido.

Portanto, a suplementação com quantidades adequadas de ômega 3 favorece o equilíbrio da bi-camada lipídica celular, favorecendo também a diminuição dos problemas de pele.

 

Estabilização das atividades renais

Estudos feitos em cães com problemas renais mostraram que animais que receberam uma suplementação rica em ômega 3 não apresentaram perda ou diminuição da função renal. Com valores de creatina urinária e plasmática que mostraram uma melhora na função renal durante o período de teste. Mostrando que a suplementação com ômega 3 possui ação de proteção dos rins [1].

 

Auxílio em ações antitumorais

Pesquisas apontam que os elementos presentes no ômega 3, mais especificamente o DHA, possuem potencial antitumoral por meio de diversos processos, incluindo a supressão da carcinogênese, a redução no crescimento tumoral, a potencialização da resposta a quimio e radioterapia e à modulação de mecanismos epigenéticos relacionados ao desenvolvimento e progressão do câncer [12].

 

Referências técnicas

1. Brown, S.A., Brown, C.A., Crowell, W.A., Barsanti, J.A., Allen, T., Cowell, C., Finco, D.R.; Beneficial effects of chronic administration of dietary ω-3 polyunsaturated fatty acids in dogs with renal insufficiency. J Lab Clin Med, v. 131, n.5, p. 447-455, 1998.

2. Casa Nova, M. A.; Medeiros, F. Recentes evidências sobre os ácidos graxos poli-insaturados da família ômega 3 na doença cardiovascular. Revista do Hospital Universitário Pedro Ernesto, v.1, n.11, p.74-80, 2011.

3. Dias, Diogo Lopes. “Ácidos graxos”; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola. uol.com.br https://brasilescola.uol.com.br/biologia/acidos-graxos.htm. Acesso em 21 de dezembro de 2020.

4. Freeman, Lisa M., 2010. Beneficial effects of omega 3 fatty acids in cardiovascular disease. Journal of Small Animal Practice. 51, 462-470. USA.

5. Guzmán, E.S.C. Bioquímica de Pescados e Derivados. Editora Funep – UNESP, Jaboticabal – São Paulo, 2000.

6. Lee, K. W.; Lip, G. Y. H. The role of omega 3 fatty acids in the secondary prevention of cardiovascular disease. QJM: An International Journal of Medicine, v.96, p.465-480, 2003.

7. Lottenberg, A. M. P. Importância da gordura alimentar na prevenção e no controle de distúrbios metabólicos e da doença cardiovascular. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia, v.53, n.5, p.595-607, 2009.

8. Mente, A.; Koning, L.; Shannon, H. S.; Anand, S. S. A systematic review of the evidence supporting a causal link between dietary factors and coronary heart disease. Archive International Medicine, v.169, n.7, p.659-669, 2009.

9. Moreira, N.X.; Curi, R.; Mancini Filho, J. Ácidos graxos: uma revisão. Nutrire; rev. Soc. Bras. Alim. Nutr.= J. Brazilian Soc. FoodNutr., São Paulo, SP. , v.24, p.105-123, dez., 2002.

10. Nasciutti, P.R.; Costa, A.P.A, Júnior, M.B.S.; Melo,N.G.; Carvalho, R.O.A. Ácidos Graxos E O Sistema Cardiovascular, v.11, n.22, p. 11, 2015.

11. Popa, I., Pin, D., Remoué, N., Osta, B., Callejon, S., Videmont, E., Gatto, H., Portoukalian, J., Haftek, M.; Analysis of epidermal lipids in normal na atopic dogs, before and after administration of na oral ômega 6/ômega 3 fatty acid feed supplement. Université Lyon 1, v.35, p. 501-509, 2011.

12. Raposo, H. F. Efeito dos ácidos graxos n-3 e n-6 na expressão de genes do metabolismo de lipídeos e risco de ateroesclerose. Revista de Nutrição, n.23, n.5, p.871-879, 2010.

 

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