Tendências da Década 2020 a 2029 – Parte 2

No início da década atual, o médicoveterinário Dr. Ronald Glanzmann, foi convidado para proferir palestra na Sacavet da USP sobre o tema “Tendências da Década”.

A abordagem do tema chamou a atenção, e ele foi convidado para palestras desde a Anclivepa Brasil em Belo Horizonte até pelo CRMV-SC para 7 palestras no início da década abordando o tema. Nós da Revista Negócios Pet publicamos também matéria sobre o tema na ocasião, e, como grande parte do que foi apontado realmente aconteceu, convidamos-o para um novo ensaio sobre as tendências. Foi elaborado um material bastante rico inicialmente com projeções apontadas pelo autor que foram publicadas na última edição em 6 tendências e agora finalizamos a opinião dele com as suas últimas 6 tendências da década de 2020 a 2029 para o segmento veterinário pet brasileiro. Nas próximas edições, o Dr. Ronald Glanzmann organizou uma lista de opiniões dos profissionais, empresários, professores e especialistas que estão influenciando fortemente na transformação do mercado pet vet brasileiro.

O Brasil como sendo impulsionador e exportador das tendências do segmento pet vet, a tecnologia e a transformação digital são a grande tsunami que vem por aí, engolirão o mercado e somente surfarão nesta onda os que tiverem se preparado e se flexibilizado para este novo mundo. O Brasil como influenciador forte do mundo pet vet na década já em maturidade para tal influência será a grande mola que dará sustentabilidade ao mercado pet vet! E o crescimento consistente do mercado de produtos e serviços para gatos para superar o de cães em mais uma década é uma análise que deverá ser considerada por todos que querem operar e crescer no segmento.

 

Tendência 7

Evolução Tecnológica

A evolução tecnológica trará tanto otimização de procedimentos desde cirurgias ou acessos minimamente invasivos crescendo, tecnologias na área de imunobiológicos, vacinas autógenas, nanotecnologia e biofármacos de terapia-alvo, que serão as grandes novidades que chegarão como opção de grande eficácia para os médicos-veterinários em suas decisões clínicas. Equipamentos portáteis de apoio na apuração e geração de indicadores de dados desde ingestão de calorias, índice de glicação, etc., já disponíveis internacionalmente para uso em humanos, certamente passarão a ser disponibilizados para uso em animais.

Na área de alimentos as fontes alternativas como lipídeos e proteínas de insetos e derivadas de carne produzida em laboratório certamente passarão a incorporar um percentual dos alimentos. A tecnologia de impressão 3D para órgãos a partir de células-tronco é uma realidade que deve se desenvolver fortemente. A busca da longevidade para os animais que vivem menos que os humanos faz com que a alimentação deles através da tecnologia seja muito mais avançada do que a dos próprios humanos. Inteligência artificial certamente apoiará fortemente em decisões clínicas desde a anamnese complementando e norteando o médico-veterinário.

 

Tendência 8

Aspectos Regulatórios e Jurídicos

O Brasil é um país jovem em termos de história e política. Observando os caminhos que Europa e Estados Unidos tiveram e o cenário político atual, há uma expectativa de que seja uma tendência regulamentar o que não está regulamentado no segmento ao longo da década. Questões como nutrologia, células-tronco, ozonioterapia, entre outras devem ser regulamentadas. Regulamentações sobre responsabilidade técnica quando da compra, armazenagem, venda e dispensação de produtos também devem ser cada vez mais organizadas e exigidas, inclusive quando se tratar de produtos originalmente fabricados para uso em humanos, mas dispensados para uso por veterinários e/ou em animais.

Estabelecimentos devem se cadastrar junto ao Mapa em nível federal, Secretaria de Defesa Agropecuária em nível estadual e ao CRMV regional, sempre para tal possuindo um Responsável Técnico Veterinário. Estas questões devem gerar um bom número de empregos para médicos-veterinários ao longo da década.

 

Tendência 9

Produtos à Base de CBD – Canabidiol Livres de THC

Acompanhando o movimento nos EUA, onde em 2018 o mercado de produtos com CBD para pets movimentou 32 milhões de dólares, e 400 milhões de dólares em 2019. Estudos apontam que este mercado movimentará nos EUA 2 bilhões de dólares em 2023. Esta tendência deverá chegar forte e influenciar muitas indústrias e importadoras no Brasil, modificando drasticamente a rotina clínica com a entrada do CBD nas prescrições para ansiedade, dor (particularmente articular), distúrbios convulsivos e problemas de pele como alternativa natural a opioides e medicamentos tradicionais com efeitos colaterais, uma forte tendência de busca das novas gerações.

 

Tendência 10

Decisão Compartilhada

A Medicina Veterinária deverá durante a década adotar cada vez mais uma discussão aberta com os tutores de forma a apontar todas opções plausíveis que eles podem ter para o tratamento, mostrando prós e contras em cada opção, desde o procedimento até o produto final. O próprio tutor tomará a decisão final. Se optar pelo preço mais barato, o médico-veterinário terá deixado claro todos os riscos e contrapontos. Muitos médicos-veterinários se preocupam com economia para o bolso dos clientes e irão descobrir que eles não pensam em economia e sim em resultados eficazes. Uma grande tendência assim como já existe na área humana é a de separar o custo de cada insumo num procedimento e não embutir o preço de tudo junto. Separar o serviço dos insumos e medicamentos, e alguns insumos, dar a opção para o tutor escolher apontando vantagens e desvantagens.

 

Tendência 11

Brasil é referência mundial em Medicina Veterinária

Somando animais de produção mais animais de companhia, o Brasil possui mais de 1,5 bilhão de animais. Assim como a China está para o mundo em pessoas, o Brasil está para o mundo em animais.

Além de ter conquistado a segunda posição como economia pet do mundo com 6,4% de participação, superando o Reino Unido com 6,1%. Com estimados 78,1 milhões de cães e gatos, o Brasil já possui mais cães e gatos do que crianças e adolescentes até 19 anos; e tem mais que o dobro de cães e gatos quando comparado a idosos, com crescimento anual médio de 5% da população pet contra 1,5% de crianças.

O crescente número de faculdades de Medicina Veterinária no Brasil já com turmas formadas, números que o mercado cita são 363, mas constam 304 no site do CFMV, colocando grande número de profissionais no mercado, profissionalizou fortemente a área e qualificou os profissionais num padrão inexistente em qualquer outro lugar do planeta. Todos os indicadores apontam que o Brasil será referência e ditará a maioria das novas práticas em todas as especialidades e produtos, influenciando profissionais do segmento em todo o mundo. Certo também que a internacionalização de profissionais e produtos brasileiros é forte tendência, considerando as oportunidades que existem em todo o mundo neste segmento.

 

Tendência

12 Mercado de Gatos

Infelizmente não existem fontes de dados nacionais de população de cães e gatos confiáveis atualmente no mercado. São estimativas malformuladas com números que se repetem há anos no caso de gatos e se desencontram no caso de cães. Iniciamos a década com 33 milhões de cães e 17 milhões de gatos em 2010.

Os dados de cães saltaram para 54,2 milhões e os de gatos estagnaram em 23,9 milhões na última divulgação em 2018. Os dados variaram na década de aproximadamente 17 milhões para 23,9 milhões de gatos, números estes que não podem ser considerados como os melhores indicadores, dado o salto que nos dados divulgados houve, ou seja, salto de 33 milhões para 54,2 milhões de cães no mesmo período. Ou há erro nos dados divulgados do número de cães ou há erros nos números divulgados da população de gatos em algum dos momentos. Seria muito importante envolvimento sério de organismos como IBGE para obter dados mais precisos sobre população de pets no próximo Censo ano que vem.

De qualquer forma é certo que o percentual de crescimento anual de gatos é bem maior do que o de cães, pelo menos o dobro, tanto por questões da fisiologia reprodutiva, número médio de filhotes, taxa de sobrevida, quanto por questões de independência com menor índice de depressão e ansiedade, educação e facilidade com os dejetos fisiológicos e horas de sono diário (chegando a 16 h), além de um custo com alimentação e higiene muito menor considerando consumo mensal quando comparado com um cão, o que combina bastante com tutores modernos que adiaram e reduziram decisão por terem filhos e trocaram por pets. O gato é uma opção de excelente custo e benefício para o tutor e para o gato. E o prestador de serviços de higiene, veterinária e produtos em geral precisa estar atento a este público extremamente exigente de tutores e aos próprios gatos.

Nos EUA, Rússia e vários países da Europa, os gatos já superaram os cães. Esta tendência é forte no Brasil nesta década. Apenas precisamos ter maior clareza dos números para prever com precisão quando isso irá ocorrer. Se os números atuais de população estiverem corretos como 54,2 milhões de cães e 23,9 milhões de gatos, considerando um crescimento anual médio de 4% dos cães e 8% dos gatos, somente em 2041 ocorrerá a virada, ainda necessitando duas décadas. Existe inclusive um indicador de progresso dos países com base na população de gatos superando a de cães, como sendo mais evoluídos os países que tenham mais gatos. Somente o Censo 2020 poderá nos clarear estes dados no caso do Brasil.

Ronald Glanzmann é médico-veterinário, M.Sc. pós-graduado em Nutrição Clínica pela Uningá – Ipupo/SBE – Sociedade Brasileira de Educação Farmacêutica e Nutracêutica – MBA em Marketing e Comércio Exterior pela FGV – Professor de Marketing pela FGV Campinas por 13 anos – Co-fundador Inovet e Centralvet – Atua na área há 23 anos, tendo sido o pioneiro no conceito de protocolos com suplementos terapêuticos no Brasil.

 

 

 

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