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Você ainda trata sintomas? A microbiota revela a verdadeira origem das doenças em pets

Você ainda trata sintomas? A microbiota revela a verdadeira origem das doenças em pets”

Microbiota intestinal em cães e gatos: implicações clínicas e terapêuticas

A microbiota intestinal de cães e gatos é composta por uma comunidade complexa de microrganismos que desempenham papel essencial na homeostase do hospedeiro. Atualmente, é reconhecida como um sistema funcional integrado, com impacto direto sobre a imunidade, metabolismo e integridade da barreira intestinal (Suchodolski, 2016; Barko et al., 2018).

A composição dessa microbiota é dinâmica e influenciada por fatores como dieta, idade, ambiente e uso de fármacos. Alterações nesse ecossistema, definidas como disbiose, estão associadas a diversas condições clínicas, incluindo doenças gastrointestinais, dermatológicas, hepáticas, renais e neoplásicas (Suchodolski, 2011; Pilla & Suchodolski, 2020).

Composição e funções da microbiota intestinal

A microbiota intestinal em cães e gatos é predominantemente composta pelos filos Firmicutes, Bacteroidetes, Proteobacteria e Actinobacteria (Handl et al., 2011). Esses microrganismos exercem funções fundamentais, como a fermentação de fibras alimentares, produção de ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), especialmente o butirato, e modulação do sistema imune intestinal (Barko et al., 2018).

Os AGCC desempenham papel central na manutenção da integridade da mucosa intestinal, atuando na regulação da expressão gênica, diferenciação celular e controle da inflamação. O butirato, em particular, é a principal fonte energética para colonócitos e possui efeito anti-inflamatório significativo (Barko et al., 2018).

Além disso, a microbiota participa da resistência à colonização por patógenos, por meio de competição por nutrientes e produção de substâncias antimicrobianas (Suchodolski, 2016).

Disbiose e impacto sistêmico

A disbiose intestinal está associada à perda de diversidade microbiana, aumento de microrganismos patogênicos e redução de bactérias benéficas. Essa alteração pode levar ao aumento da permeabilidade intestinal, permitindo a translocação bacteriana e a entrada de endotoxinas na circulação sistêmica (Barko et al., 2018).

Esse fenômeno, frequentemente descrito como “leaky gut”, está diretamente relacionado ao desenvolvimento de inflamação sistêmica crônica.

Eixo intestino-pele

Em cães com dermatite atópica, observa-se alteração significativa na composição da microbiota intestinal, com redução de diversidade bacteriana e aumento de marcadores inflamatórios sistêmicos (Pilla & Suchodolski, 2020).

A disbiose intestinal contribui para a ativação imunológica sistêmica, com aumento da produção de citocinas pró-inflamatórias, que se refletem na pele. Dessa forma, a dermatopatia atopias, dermtites, otites, podem ser consideradas uma manifestação periférica de um desequilíbrio intestinal.

Eixo intestino-fígado

A relação entre intestino e fígado ocorre por meio da circulação portal, que transporta metabólitos e componentes bacterianos diretamente ao fígado. Em situações de disbiose, o aumento da permeabilidade intestinal permite a passagem de lipopolissacarídeos (LPS), promovendo inflamação hepática (Suchodolski, 2016).

Esse mecanismo está implicado na fisiopatologia de hepatites crônicas e da lipidose hepática felina, além de contribuir para alterações metabólicas hepáticas.

Eixo intestino-rim

Na doença renal crônica (DRC), há alteração significativa na microbiota intestinal, com aumento da produção de toxinas urêmicas, como indoxil sulfato e p-cresol (Vaziri et al., 2013).

Essas substâncias são absorvidas pela circulação sistêmica e contribuem para a progressão da doença renal, promovendo inflamação e estresse oxidativo. A modulação da microbiota intestinal tem sido proposta como estratégia terapêutica para reduzir a carga dessas toxinas.

Microbiota e oncologia

A microbiota intestinal exerce papel importante na modulação da resposta imunológica antitumoral. Alterações na composição microbiana podem favorecer um ambiente pró- -inflamatório e imunossupressor, contribuindo para o desenvolvimento e progressão de neoplasias (Garrett, 2015).

Além disso, evidências indicam que a microbiota influencia a resposta a terapias oncológicas, afetando diretamente a eficácia de tratamentos e a ativação de células imunes (Pilla & Suchodolski, 2020).

Transplante de microbiota fecal (TMF)

O transplante de microbiota fecal consiste na transferência de microbiota de um doador saudável para um receptor, com o objetivo de restaurar o equilíbrio microbiano intestinal.

Os principais mecanismos de ação incluem a recolonização por bactérias benéficas, competição com microrganismos patogênicos e modulação do sistema imune (Weese et al., 2015).

Estudos em cães demonstraram que o TMF promove melhora clínica significativa em casos de diarreia aguda e crônica, além de restaurar a diversidade microbiana intestinal (Weese et al., 2015; Pereira et al., 2018). Em cães com doença inflamatória intestinal, o TMF foi associado à melhora dos sinais clínicos e aumento de bactérias benéficas (Chaitman et al., 2016).

De acordo com as recomendações da World Small Animal Veterinary Association (WSAVA) e consensos derivados de grupos de gastroenterologia veterinária (incluindo diretrizes baseadas em trabalhos como Weese et al., 2015; Pilla & Suchodolski, 2020), a seleção do doador para transplante de microbiota fecal (TMF) é um dos pontos mais críticos para segurança e eficácia do procedimento.

A WSAVA enfatiza que o doador deve ser clinicamente saudável, metabolicamente estável e microbiologicamente seguro, reduzindo o risco de transmissão de patógenos e garantindo um microbioma funcional.

Critérios do doador de TMF segundo diretrizes da WSAVA

1. Estado clínico geral

O doador deve apresentar:

  • Ausência de doenças sistêmicas ou gastrointestinais
  • Escore corporal ideal (nem obeso nem caquético)
  • Ausência de histórico de doenças crônicas (dermatológicas, hepáticas, renais ou endócrinas)
  • Sem histórico de neoplasias

A WSAVA destaca que animais com qualquer histórico de doença inflamatória ou imunomediada devem ser excluídos (Pilla & Suchodolski, 2020).

2. Histórico recente (essencial)

O animal doador NÃO deve apresentar:

  • Uso de antibióticos nos últimos 3 a 6 meses
  • Uso recente de anti-inflamatórios ou imunossupressores
  • Episódios recentes de diarreia ou vômito
  • Internações ou doenças infecciosas recentes

Esses fatores alteram significativamente a microbiota, comprometendo a qualidade do transplante (Weese et al., 2015).

3. Avaliação laboratorial obrigatória

A WSAVA recomenda um screening completo, incluindo:

  • Exames fecais
  • Parasitológico (flutuação + sedimentação)
  • Pesquisa de Giardia spp.
  • Pesquisa de Cryptosporidium spp.
  • Cultura bacteriana (Salmonella, Campylobacter, Clostridium difficile)
  • Exames sanguíneos
  • Hemograma completo
  • Bioquímica sérica (hepática e renal)
  • Doenças infecciosas (dependendo da região)
  • Ehrlichia spp.
  • Anaplasma spp.
  • Leishmania spp.
  • FIV/FeLV (em gatos)
  • A escolha dos testes deve considerar a epidemiologia local.

4. Dieta do doador

A WSAVA recomenda que o doador:

  • Tenha dieta estável e de alta qualidade
  • Evite dietas cruas (devido ao risco microbiológico)
  • Não esteja em dietas terapêuticas recentes

A dieta influencia diretamente a composição da microbiota e, consequentemente, o sucesso do TMF.

5. Idade e estilo de vida

Critérios ideais:

  • Adulto jovem (≈1 a 6 anos)
  • Vacinação atualizada
  • Vermifugação em dia
  • Animal domiciliado (evitar acesso irrestrito à rua)

Animais geriátricos ou muito jovens podem apresentar microbiota menos estável.

6. Avaliação comportamental e ambiental

A WSAVA também considera:

  • Ausência de coprofagia
  • Ausência de ingestão de lixo ou carcaças
  • Ambiente controlado (baixo risco sanitário)

Esses fatores reduzem risco de contaminação e transmissão de patógenos.

Critérios ideais resumidos (perfil do doador ideal)

Um doador ideal de TMF segundo a WSAVA é:

  • Clinicamente saudável
  • Sem uso recente de medicamentos
  • Com exames laboratoriais normais
  • Livre de patógenos infecciosos
  • Com dieta estável e adequada Com microbiota presumidamente equilibrada

Pontos críticos destacados pela WSAVA

  • A triagem inadequada do doador é o principal risco do TMF
  • A microbiota transferida pode carregar patógenos ocultos ou perfis disbióticos
  • O TMF deve ser tratado como procedimento médico, não empírico

Evidência científica

  • A seleção rigorosa do doador reduz eventos adversos e aumenta eficácia do TMF (Weese et al., 2015)
  • A microbiota do doador influencia diretamente o sucesso clínico (Pilla & Suchodolski, 2020)
  • Estudos mostram que a diversidade microbiana do doador é fator determinante para resposta terapêutica

Transplante oral de microbiota

O transplante oral, realizado por meio de cápsulas contendo microbiota liofilizada, representa uma alternativa menos invasiva ao TMF convencional. Essa abordagem apresenta vantagens como facilidade de administração e menor estresse para o paciente. (Weese et al., 2015).

Sequenciamento do gene 16S rRNA

O sequenciamento do gene 16S rRNA é uma ferramenta amplamente utilizada para análise da microbiota intestinal. Esse método permite a identificação e quantificação das bactérias presentes em uma amostra, com base em regiões conservadas do DNA bacteriano (Suchodolski, 2016).

Na prática clínica, o teste de microbiota por 16S rRNA pode ser utilizado para:

  • Avaliar disbiose intestinal
  • Monitorar resposta a terapias
  • Auxiliar na personalização de dietas e probióticos
  • Comparar perfis microbianos entre indivíduos

Entretanto, é frequentemente necessária a associação com análises complementares, como metabolômica (Barko et al., 2018).

Conclusão

A microbiota intestinal desempenha papel central na fisiopatologia de diversas doenças em cães e gatos. A compreensão de suas interações com o sistema imunológico e metabólico permite uma abordagem clínica mais integrada e eficaz.

O transplante de microbiota fecal e o sequenciamento do gene 16S rRNA representam avanços importantes na medicina veterinária, contribuindo para o desenvolvimento de estratégias terapêuticas baseadas na modulação do ecossistema intestinal.

Referências

Barko, P. C., McMichael, M. A., Swanson, K. S., & Williams, D. A. (2018). The gastrointestinal microbiome: a review. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, 48(5), 761–777.

Chaitman, J., Jergens, A., Gaschen, F., et al. (2016). Fecal microbial transplantation in dogs. Journal of Veterinary Internal Medicine, 30(6), 1821–1827.

Garrett, W. S. (2015). Cancer and the microbiota. Science, 348(6230), 80–86.

Handl, S., Dowd, S. E., Garcia-Mazcorro, J. F., et al. (2011). Massive parallel 16S rRNA gene pyrosequencing reveals highly diverse fecal bacterial communities in healthy dogs. FEMS Microbiology Ecology, 76(2), 301–310.

Pereira, G. Q., Gomes, L. A., Santos, I. S., et al. (2018). Fecal microbiota transplantation in puppies with diarrhea. Journal of Veterinary Science, 19(3), 399–405.

Pilla, R., & Suchodolski, J. S. (2020). The role of the canine gut microbiome. Frontiers in Veterinary Science, 6, 498.

Suchodolski, J. S. (2011). Companion animals symposium: microbes and gastrointestinal health. Journal of Animal Science, 89(5), 1520–1530.

Suchodolski, J. S. (2016). Diagnosis and interpretation of intestinal dysbiosis in dogs and cats. The Veterinary Journal, 215, 30–37.

Vaziri, N. D., Wong, J., Pahl, M., et al. (2013). Chronic kidney disease alters intestinal microbial flora. Kidney International, 83(2), 308–315.

Weese, J. S., Jalali, M., & Weese, H. E. (2015). Fecal microbiota transplantation in veterinary medicine. Journal of Veterinary Internal Medicine, 29(6), 1736–1742.

Dra Glauce Carreira, pós graduada em Ortomolecular e Alimentação funcional com Formação em Modulação Intestinal, Florais Quânticos. Professora e coordenadora de 1ª pos graduação no Mundo de Med Ortomolecular e Modulação Intestinal na Veterinária pelo IDEPES, Ceo do Instituto Wellness Pet, o maior centro de terapias integrativas e holísticas para Pets exóticos e Silvestres do País.
Informações: (11) 98915-3162

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